Virgil Abloh, os CDJs transparentes da Pioneer e a lógica dos 3%

Virgil Abloh, os CDJs transparentes da Pioneer e a lógica dos 3%

Quando Virgil Abloh decidiu personalizar um par de CDJs da Pioneer, ele não estava apenas brincando com estética, estava criando um manifesto sobre como a música, o design e a tecnologia podem se fundir de forma simbiótica.

Em 2019, durante a abertura da sua exposição Figures of Speech no Museu de Arte Contemporânea de Chicago, o criador da Off‑White™ revelou uma das colaborações mais inesperadas e viscerais da época, uma versão completamente transparente do CDJ‑2000NXS2 e do mixer DJM‑900NXS2. Equipamentos clássicos, desmontados e remontados para que fossem lidos de outro jeito.

Os decks, que são padrão da cena eletrônica mundial, apareceram sem pintura, sem cor, sem marca. A carcaça foi refeita em acrílico transparente, os botões foram reduzidos ao mínimo e toda a serigrafia sumiu.

O que antes era um painel fechado, virou um todo exposto. Virgil queria mais do que um visual novo. A ideia, segundo ele próprio descreveu, era repensar a interação entre tecnologia musical e ação humana. Ao tornar visível o que geralmente é escondido, ele queria provocar uma nova escuta, e talvez um novo tipo de resposta criativa.

Essa lógica bate direto com o que ele chamava de “teoria dos 3%”.

Para Abloh, você não precisa redesenhar o mundo todo, basta alterar 3% de um objeto para transformar completamente a forma como ele é percebido. E foi exatamente isso que ele fez, mexeu na carcaça, removeu o filtro, e colocou na vitrine um CDJ que parecia o mesmo, mas não era. Estava mais próximo de uma escultura funcional do que de um equipamento tradicional de estúdio.

Galeria de Legado de Virgil Abloh na arquitetura e design é tema de exposição no Museu do Brooklyn

Esses equipamentos nunca foram vendidos. Foram criados exclusivamente para a exibição e viraram peça única, mas claramente foram usados. Virgil tocou com eles no Coachella, num set que levou o conceito para além da galeria, e em algumas outras aparições como por exemplo no DJ set after party da Louis Vuitton onde tocou Arthur Verocai.

A Pioneer endossou o projeto como colaboração oficial. E isso importava, porque validava a proposta, o padrão da indústria podia ser subvertido. A própria marca descreveu o projeto como “um esforço conjunto para explorar novas fronteiras entre som, forma e experiência”. Basicamente era um experimento com significado.

A intervenção também carrega um discurso sobre linguagem visual e função. Os CDJs, que se tornaram ícone da cultura de pista, sempre carregaram um design fechado, técnico, quase corporativo. Virgil rompeu isso com um gesto simples: escancarar o que está dentro. Deixar que as pessoas vissem os fios, os processadores, os circuitos. Mostrar que até a interface tem história. E que o invisível também comunica.

É o tipo de provocação que define a trajetória dele. A exposição Figures of Speech falava justamente dessas intersecções entre arte, moda, arquitetura e cultura urbana. Os CDJs transparentes não foram um capricho isolado, mas parte do mesmo pensamento. Um lembrete de que o som também é visual.

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