Sócrates e sua luta pela democracia dentro e fora de campo
No início da década de 80, o Brasil vivia a transição da ditadura civil-militar para a redemocratização. O governo iniciava uma abertura política gradual, enquanto movimentos sociais pressionavam por eleições diretas. Nesse contexto, o futebol ainda operava sob estruturas hierárquicas rígidas, com decisões concentradas nas diretorias dos clubes.

Foi nesse cenário que Sócrates Brasileiro liderou uma experiência inédita dentro do Corinthians. Ao defender a participação coletiva nas decisões internas do clube, ele conectou o ambiente esportivo ao debate político nacional. A Democracia Corinthiana transformou o funcionamento do time e inseriu o futebol no processo mais amplo de redemocratização do país.

Sócrates nasceu em 1954, em Belém, e foi criado em Ribeirão Preto. Formou-se em Medicina pela Universidade de São Paulo em 1977, antes de consolidar a carreira como jogador profissional. Em 1978, transferiu-se para o Corinthians. Dentro de campo, destacou-se pela visão de jogo e pela liderança. Fora dele, mantinha interesse constante por política e questões sociais.

No final dos anos 70, o Brasil enfrentava inflação elevada, mobilizações sindicais e pressões por anistia política. Em 1979, a Lei da Anistia foi aprovada. Nos anos seguintes, cresceram as manifestações que culminaram na campanha das Diretas Já, em 1983 e 1984.

Em 1981, dentro do Corinthians, iniciou-se um processo de reorganização administrativa sob a presidência de Waldemar Pires e com a participação do sociólogo Adilson Monteiro Alves. Jogadores como Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon passaram a defender que decisões internas fossem tomadas por votação.

A proposta estabeleceu que atletas, comissão técnica e funcionários participassem das deliberações sobre concentração, contratações, premiações e rotinas do clube. Cada voto tinha o mesmo peso. O modelo rompeu com o padrão tradicional de comando vertical no futebol brasileiro.
A experiência coincidiu com o avanço das mobilizações políticas no país. Em 1982, o Corinthians conquistou o Campeonato Paulista já sob o modelo participativo. Em 1983, repetiu o título. No mesmo período, os jogadores passaram a estampar em suas camisas mensagens relacionadas às eleições diretas.

Em abril de 1984, durante um comício das Diretas Já no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, Sócrates declarou que permaneceria no Brasil caso a emenda constitucional que restabelecia eleições presidenciais diretas fosse aprovada. A proposta não foi validada pelo Congresso naquele momento. Pouco depois, o jogador transferiu-se para o futebol italiano.

A Democracia Corinthiana perdeu força após a saída de seus principais líderes e mudanças internas no clube em 1985. Ainda assim, o episódio consolidou a associação entre futebol e participação política. Parte da imprensa reagiu com desconfiança. Setores dirigentes demonstraram resistência. A torcida, por outro lado, incorporou o movimento como parte da identidade do clube.
O movimento da Democracia Corinthiana não alterou de forma estrutural o modelo de gestão do futebol brasileiro, mas ampliou o debate sobre autonomia dos atletas e responsabilidade social dos clubes dentro e fora de campo.

Inseriu o esporte no processo histórico de redemocratização e demonstrou que o ambiente esportivo também podia refletir disputas políticas e culturais.
Apesar de ter durado apenas alguns anos, o movimento deixou marcas duradouras na memória do clube e de sua torcida. Na gestão atual, os sócios do Corinthians mantiveram o direito de eleger diretores por voto; princípios de transparência e participação social foram frequentemente ressaltados pela diretoria e incorporados a programas institucionais, refletindo a importância histórica atribuída ao modelo participativo do início dos anos 1980.
O clube manteve identificação com causas sociais e comprometeu-se com projetos comunitários, características que estudos associaram à continuidade do legado político e social da Democracia Corinthiana no ambiente esportivo e cultural.

A narrativa institucional passou a celebrar esse capítulo como parte da identidade do clube, reforçando o vínculo entre torcedores, associados e práticas de engajamento coletivo.
Sócrates continuou sendo um símbolo da união entre esporte e política. Seu gesto de comemorar gols com o punho levantado se tornou uma marca da luta pela democracia.

Ao transformar o vestiário em espaço de deliberação coletiva, ele vinculou o futebol a um momento decisivo da história brasileira. O legado ultrapassou os títulos conquistados. Passou a integrar a memória pública sobre o período de transição democrática e consolidou a imagem do atleta como agente ativo na vida social do país.