Revolução rasta e a internacionalização do reggae como forma de protesto
Como o vocalista Toots Hibbert dos Maytals ajudou a transformar uma expressão cultural jamaicana em linguagem política global.
A Jamaica dos anos 1970 vivia um período de forte instabilidade política e social. O governo de Michael Manley, alinhado a propostas socialistas e a pautas de redistribuição, enfrentava oposição direta do Jamaica Labour Party, apoiado por interesses externos. A disputa entre os dois grupos extrapolou o campo institucional e se materializou em violência armada, pobreza urbana e um ambiente próximo ao de guerra civil.

Foi nesse contexto que o reggae deixou de ser apenas um ritmo local e passou a operar como meio de comunicação política. Entre os artistas responsáveis por esse deslocamento estava Toots Hibbert, à frente do grupo Toots & the Maytals. Com o álbum Funky Kingston, lançado em 1973, o reggae alcançou um público internacional e consolidou-se como uma das mais influentes linguagens musicais de protesto do século XX.
Surgimento
O grupo surgiu no início dos anos 1960, ainda sob o nome The Maytals, como um trio vocal formado em Kingston. Em 1968, a canção “Do The Reggay” apresentou ao mundo o termo que passaria a nomear o gênero. Naquele momento, o reggae ainda era pouco conhecido fora da Jamaica e mantinha forte vínculo com as tradições locais, o ska e o rocksteady.

A virada ocorreu no início da década de 1970. Em 1972, o nome de Toots Hibbert passou a integrar oficialmente o nome da banda, reforçando sua identidade artística. No mesmo ano, o grupo participou da trilha sonora do filme The Harder They Come, marco fundamental para a difusão internacional do reggae por meio do cinema. O longa projetou a cultura jamaicana para além do Caribe e apresentou ao público estrangeiro uma música diretamente ligada à experiência social da ilha.

Em 1973, foi lançada a primeira versão do álbum Funky Kingston. O disco reuniu canções que abordavam o cotidiano da classe trabalhadora, o desemprego, a desigualdade social e a necessidade de resistência diante da precariedade econômica. Ao mesmo tempo, mantinha uma energia rítmica dançante, característica que permitiu ao reggae circular em espaços de entretenimento sem perder sua carga política.
A faixa-título dialogava com o funk e o soul norte-americanos, aproximando o reggae de referências familiares ao público internacional. Já “Time Tough” tratava diretamente da falta de perspectivas econômicas e da pressão financeira vivida por trabalhadores jamaicanos, desmontando a ideia de que o reggae se limitava a mensagens escapistas.
Outras canções incorporavam elementos do gospel e do soul, refletindo a formação religiosa de Toots Hibbert e a presença dessas tradições musicais nas comunidades negras do Caribe.
Legado
Funky Kingston marcou um ponto de inflexão na história do reggae. O álbum não apenas ampliou o alcance do gênero, como também consolidou sua dimensão política e cultural. A partir daquele momento, o reggae passou a ser produzido, reinterpretado e apropriado em diferentes partes do mundo, mantendo sua ligação com temas como resistência, identidade negra e crítica ao legado colonial.

Embora Toots & the Maytals não tenham alcançado o mesmo grau de mitificação de outros nomes do reggae, sua contribuição foi decisiva para transformar uma expressão local em linguagem global. O disco ajudou a deslocar o olhar internacional para a realidade social jamaicana e, por extensão, para as experiências de populações negras no Sul Global.
Cinco décadas depois, Funky Kingston permanece como documento histórico de uma revolução cultural. Não uma revolução armada, mas uma transformação simbólica que fez da música um instrumento de circulação de memória, denúncia e identidade coletiva.