O reggaeton e sua linguagem de resistência na América Latina
O surgimento do reggaeton ajuda a explicar uma transformação profunda na cultura urbana latino-americana: a ascensão de expressões musicais periféricas ao centro da identidade popular contemporânea. Antes associado apenas ao entretenimento e ao consumo pop, o gênero carrega uma trajetória marcada por marginalização, repressão e disputa simbólica, que revela muito sobre juventude, cidade e poder cultural na América Latina.

Até então, a música que ocupava os espaços institucionais e midiáticos na região seguia padrões definidos pela indústria tradicional, com pouca abertura para narrativas vindas das periferias urbanas. Produções associadas a juventudes negras e pobres enfrentavam barreiras estéticas, sociais e econômicas, sendo frequentemente tratadas como desvios morais ou ameaças à ordem pública.

Foi nesse cenário que o reggaeton começou a se formar, nos anos 1990, a partir da confluência de influências afro-diaspóricas como o reggae jamaicano, o dancehall, o hip-hop e o rap em espanhol. Conhecido inicialmente como “underground” ou “reggae em espanhol”, o gênero surgiu em comunidades periféricas de Porto Rico, Panamá e outras regiões do Caribe hispânico, sustentado por redes informais de produção e circulação.

Os primeiros sinais apareceram em festas de bairro, rádios comunitárias, ruas e circuitos independentes, onde DJs e MCs criaram uma sonoridade própria baseada no dembow e em letras que narravam a violência cotidiana, a desigualdade social e o controle policial. Artistas que mais tarde se tornariam referências globais, como Daddy Yankee, iniciaram suas trajetórias nesse contexto, quando o reggaeton ainda era tratado como expressão marginal e sem legitimidade cultural.

À medida que se espalhava, o reggaeton passou a provocar reações institucionais. Em Porto Rico, durante os anos 2000, o Estado adotou políticas de repressão que associavam o gênero ao narcotráfico e à delinquência juvenil. Batidas policiais apreendiam cassetes e CDs, escolas públicas eram fiscalizadas e jovens eram abordados por consumir ou produzir reggaeton. Daddy Yankee e outros pioneiros relatam que o ritmo foi enquadrado como problema de segurança pública, não como manifestação cultural.

O que era local passou a redefinir dinâmicas culturais mais amplas. Com o tempo, o reggaeton ultrapassou o circuito underground e se consolidou como elemento central da cultura popular latino-americana, conectando diferentes países por meio de uma linguagem sonora comum. A expansão do gênero dialogou com o mercado, com a mídia e com outras cenas musicais, influenciando moda, dança, linguagem e comportamento juvenil.
Décadas depois, o reggaeton ainda se manifesta como força cultural ativa, reinterpretada por novas gerações. Em 2019, durante os protestos em Porto Rico, a música ocupou as ruas como ferramenta de mobilização social. O slogan “Sin perreo no hay revolución” sintetizou esse momento, no qual a dança e o som tornaram-se formas coletivas de protesto contra a corrupção, culminando na renúncia do governador Ricardo Rosselló.

Nesse novo ciclo, artistas como Bad Bunny ampliaram o alcance político do reggaeton ao incorporar críticas explícitas a temas como colonialismo, violência de gênero, masculinidade tóxica e direitos da população LGBTQIA+. Sem abandonar o espanhol ou suas referências culturais, o gênero também impôs a língua latina como força central no pop global, com nomes como J Balvin e Karol G alcançando projeção internacional sem recorrer à adaptação ao inglês.
Trecho de “Lo que pasó a Hawaii” de Bad Bunny (música que faz crítica à gentrificação, perda de cultura e exploração):
“Querem me tirar o rio e também a praia
Querem o meu bairro e que a vovó vá embora
Não, não solte a bandeira e nem esqueça o ‘lelolai’
Porque não quero que façam contigo o que fizeram com o Havaí”
Esse verso denuncia como interesses externos (turismo massivo, especulação imobiliária e “gringo-ficação”) tentam retirar o espaço, a história e até os lugares cotidianos da vida porto-riquenha, ligado diretamente à crítica social de proteção de território e identidade cultural.
A apresentação de Bad Bunny no Super Bowl LX foi um marco de representatividade cultural. Pela primeira vez, um artista latino-americano se apresentava como atração principal em um dos palcos mais assistidos do mundo, cantando predominantemente em espanhol e celebrando sua identidade e herança cultural.

Foi uma expressão de diversidade em meio a debates sobre imigração. A escolha reforça a influência da música latina no mainstream e amplia o alcance de uma comunidade sub-representada.
O reggaeton não pode ser compreendido apenas como produto comercial ou fenômeno pop. Sua história revela um processo contínuo de resistência cultural, social e política. Das periferias criminalizadas aos palcos globais, o gênero construiu-se como voz coletiva de juventudes marginalizadas, articulando identidade, protesto e pertencimento.

Ao ocupar espaços de poder simbólico sem abandonar suas raízes, o reggaeton reafirma a centralidade das culturas populares na redefinição do futuro cultural da América Latina.