O espelho distorcido da América no seriado Atlanta

É estranho pensar que uma série que começa com a ideia de impulsionar a carreira de um rapper local consiga, em poucos episódios, desconstruir tudo, expondo o racismo americano nas suas entranhas mais absurdas. Atlanta, criada por Donald Glover, Bryan Tyree Henry, LaKeith Stanfield e Zazie Beetz, estreia em 2016 pela FX e se transforma rapidamente num inventário silencioso da cultura negra nos EUA contemporâneos.
A série parte do incômodo ao construir um universo em que tudo parece familiar demais para quem vive aquilo, e absurdo demais para quem só assiste de fora.

Donald Glover, além de criador e protagonista, montou uma equipe majoritariamente negra, com seu irmão Stephen Glover como principal roteirista e Hiro Murai como direção visual, a cenografia de um sitcom americano, mas que em todo episódio, troca para uma escolha visual crua, dividindo os takes quase como entre o que está sendo pintado, o ilusório, e o que aquilo realmente quer dizer. Esse é o tom de estranheza e incômodo que a série escolhe. É uma estética de “hip-hop e Twin Peaks” que ele próprio já definiu como ambição. E funciona. A série ganhou elogios imediatos da crítica, com aprovação de 98% no Rotten Tomatoes na primeira temporada.
Logo nos primeiros episódios, Atlanta declara guerra ao padrão.
O ponto de partida é Earn, um cara sem rumo tentando agenciar o primo Paper Boi, rapper local em ascensão. Mas logo fica claro que o foco não é o rap, nem a ascensão, mas sim tudo que se coloca entre eles e qualquer forma de controle sobre as próprias narrativas.

O que Atlanta faz com as estruturas raciais e sociais não é denúncia escancarada. É exposição.
Episódios como “B.A.N.” (S1E7), em que a série simula um talk show na fictícia Black American Network, ironizam diretamente a forma como o debate racial é transformado em entretenimento. Nesse episódio, a discussão gira em torno de um homem negro que se identifica como um homem branco de 35 anos, enquanto comerciais falsos sobre masculinidade preta, cigarro e saúde mental aparecem entre os blocos. A identidade preta virou pauta, produto, meme e debate, tudo ao mesmo tempo, e sempre sob um olhar de fora.
Inclusive com um rap americano interpretado por um homem negro que se entende como branco adulto, acenando ironicamente para o apagamento identitário e a transformação de produtos.

Outro exemplo é “Teddy Perkins” (2.6), quase um horror psicológico centrado em trauma infantil, abusos de poder e masculinidade tóxica preta, tudo dentro de uma mansão que reproduz estereótipos sobre cultura negra e fama. Darius visita a mansão de um homem excêntrico, branco, mas com aparência grotescamente embranquecida, que vive isolado e aprisionado no próprio trauma. É uma alusão clara a Michael Jackson, mas também à forma como a fama, o abuso e a cultura branca destroem figuras negras que tentam se encaixar em um padrão que nunca foi feito para elas.
A série rompe com a estrutura convencional de sitcom, mas também não se encaixa no drama tradicional, ao flutuar entre gêneros, está sempre prestes a abandonar sua própria lógica. Ao dizer que faz parte de uma série de drama quase, não é como se houvesse a incompatibilidade com sátiras ou como se cenas cômicas fossem apenas um refúgio e escolha do diretor, mas o drama parte justamente pelo grande cobertor que é pintado no pano de fundo da série. Você assiste 1h de episódio sem entender justamente nada, parece uma união de cenas somente, para em um estalar de dedos, a série te relembra aquilo que você está esquecendo de olhar.

A série não tenta “representar” negros americanos. Ela desarma a ideia de representação como objetivo. Ao colocar personagens negros em situações de desconforto, Glover desafia a expectativa sobre desconstruir o que foi vendido como “cultura negra americana”, dando às caras também ao que realmente ocorre na indústria.
Esse movimento é evidente nas temporadas gravadas na Europa. A série muda de cenário, mas os personagens seguem sendo colocados em ambientes onde a identidade racial é lida por uma lente exótica, quase como se fossem objetos de estudo ou atração. É a branquitude europeia tentando consumir a experiência negra como fetiche. A série mostra o ridículo dessas situações sem precisar narrar moralmente o que está acontecendo.

Outro ponto que a série escancara, mas sem didatismo, é a hipocrisia da indústria do entretenimento.
Há episódios em que a própria ideia de “diversidade” é retratada como moeda de troca. A presença preta é usada para validar campanhas publicitárias, contratos e posicionamentos públicos, mas sem nenhum interesse real em mudança. Atlanta mostra que o problema não é a ausência de visibilidade, e sim o controle sobre o que está sendo visibilizado.
No fundo, Donald Glover sabe que não está só criando uma série, mas escancarando um debate não tão agradável para uma parcela das pessoas.
É isso que torna Atlanta uma das séries mais importantes da década.







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