O caos é o início de tudo - a tríade montada por Alee

Uma trilogia temática que parte da ruína pessoal para alcançar o controle artístico. Caos se tornou um movimento carregado por Alee, a tempos não víamos algo assim no rap nacional

O caos é o início de tudo - a tríade montada por Alee

Poucos artistas da cena atual conseguiram costurar um discurso tão coeso e ainda assim tão mutável quanto Alee.

O que ele constrói desde sua o início de 2024 um projeto de identidade, dividido em três capítulos: Dias Antes do Caos, CAOS e CAOS Deluxe

Uma trilogia temática que parte da ruína pessoal para alcançar o controle artístico. Caos se tornou um movimento carregado por Alee, a tempos não víamos algo assim no rap nacional, mesmo. Todo o entorno do projeto, a construção das faixas, os temas e toda a produção são capazes de atrair até mesmo quem não se familiariza com o gênero. 

Mas, isso não quer dizer que Alee se distanciou em algum momento da cultura e do trap/rap. Pelo contrário, o artista é hoje o grande representante do trap no Brasil, talvez o que melhor o faça.

Alee nasceu em Camaçari, interior da Bahia. A música sempre esteve por perto, com a mãe backing vocal e o tio, Denny Denan, um dos nomes da Timbalada. Em entrevistas e lives, ele relembra que cantava desde criança, mas sem acreditar que poderia viver disso.

Mas como tantas promessas na música brasileira, foi assinado cedo, e mal. Aos 17 anos, fechou contrato com a Hash Produções, que na época pareceu uma boa, um selo com artistas em ascensão como Jovem Dex, Brandão85, Leviano, Teto, estrutura de produção e promessas de alcance. Mas o que veio depois foi limitação criativa e bloqueio de lançamentos por parte dos organizadores da label, que travaram totalmente a carreira desses.

Teto não assinou e foi para a 30praum, Leviano saiu antes que desse ruim e assinou com a Mainstreet, mas Brandão85, Jovem Dex e Alee passaram anos sem conseguir trabalhar do próprio jeito, presos num acordo que sufocava seu momento.

A disputa foi parar na Justiça, e ainda que o rapper tenha conseguido sair de lá, o tempo perdido não voltou.

O caos é o início de tudo

No dia 16 de fevereiro de 2024, ele lançou Dias Antes do Caos, álbum de estreia no novo ciclo. O disco soa como um grito interno que finalmente pôde sair.

A confusão mental de um jovem negro que chegou a ver sua carreira no abismo, alguém que já tinha acumulado promessas, engolido atrasos, apostado tudo e sido travado por quem devia impulsionar. O disco é resultado disso, algo de quem precisava exaurir toda essa voz guardada.

E esse universo de abismo, caos, incertezas, se expande nas próprias faixas e na produção.

A primeira escuta é caótica - pra combinar - são tantos elementos, músicas como Panther que levam um bom tempo para serem digeridas, mas que logo de cara já te deixa curioso e que não parece uma mixtape. Sim, é uma mixtape.

Mas é aí que mora o mérito. Mesmo sendo apresentado como uma mixtape, a tape soa como algo muito mais planejado do que aparenta. Em entrevista, Alee comentou que a ideia surgiu numa conversa com Klisman, e que queria algo na linha do Days Before Rodeo, do Travis.

O lançamento foi um choque, em quatro dias, mais de dois milhões de plays só no Spotify. 

Tudo para logo virar disputa novamente. Me lembro de escutar todos os dias nas primeiras semanas ao álbum, e do nada, todas as músicas simplesmente sumirem.

A Hash, mesmo após a separação, conseguiu derrubar o álbum das plataformas por algumas horas, mais um reflexo da batalha contratual que Alee travava nos bastidores. Ainda assim, o projeto seguiu, e ali já dava para ter uma noção do que estava sendo construído.

Caos, agora sim, o álbum

Sete meses depois, em setembro, Alee lançou CAOS. Onde tudo explode, a raiva agora tomou forma, tivemos o acesso total as ideias e o propósito de Alee.

Com quase a mesma quantidade de faixas de Dias Antes do Coas, o álbum completo trouxe uma visão ampla desse universo, é a fase em que ele começa a falar sobre o que conquistou. Grana, ouro, presentear a mãe, desabafar sobre o pai. Fala de fama, de falsos amores, de gente querendo estar próximo, os dilemas que já conhecemos da vida de fama.

No lançamento, havia dúvida - ao menos da minha parte - se Alee iria conseguir fazer novamente um projeto como o anterior. O mais legal é que na segunda faixa isso já é respondido e inclusive, superado. A produção, seleção de beats e a genialidade de vocais é simplesmente único.

A faixa de abertura conta com o ponto “A Malandragem Come Solta”, homenageando Zé Pilintra, uma saudação à malandragem. A partir de Tempo do Ouro transitamos suas memórias familiares, conflitos com a polícia, ambição, ódio, sobrevivência e identidade, que se entrelaçam numa estética intensa e o caos que o domina vira combustível artístico.

Em Caos, Dias Antes do Caos e Caos Deluxe, Alee mostra uma versatilidade que o cenário do trap atual não estava nada acostumado. Nem um pouco. É uma complexidade sonora e de arranjos tão grande que escancara o trabalho bem feito por ele e seus produtores: Dalass, Neckklace, Nagalli, Rocco, QualyWav1, Dexter, Saboya, OG Bahia, Del Jay, Peppnx, Oson. A influência da Bahia é muito sentida nesses discos, todas as músicas e produções têm um bounce diferente, uma estrutura própria que distancia Alee do óbvio.

Em julho de 2025, veio o fechamento com Caos Deluxe, lançado para concluir esse ciclo narrativo, entre o ódio, o revés, a subida de um jovem negro, a autoestima, a vida com mulheres e falsos amores, dinheiro e pessoas falsas. 

Cada parte representa um ponto no processo de sobrevivência e autoafirmação. Dias Antes do Caos mostra alguém que ainda busca saída, CAOS é a imersão, a vivência em seu estado mais puro de confronto, e CAOS Deluxe é a dominação desse universo, o caos transformado em matéria-prima criativa.


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