O arquivo digital da CP Company

Você já explorou os arquivos da C.P. Company?

O arquivo digital da CP Company

Você já explorou os arquivos da C.P. Company?

É curioso como, em muitos casos, a construção de linguagem e identidade visual de uma marca acontece com mais força no que está guardado do que no que é lançado. No caso da C.P. Company, isso é ainda mais direto. A marca italiana criada por Massimo Osti nos anos 1970 é uma das que melhor documenta seu próprio processo.

O arquivo digital da grife, disponível no site oficial, é um exemplo raro de organização e profundidade dentro da moda. E mais do que um museu de peças antigas, ele é ferramenta, referência e fonte de estudo.

A marca nasceu em 1971, ainda sob o nome Chester Perry, tirado de uma tirinha britânica, quando Massimo Osti, até então designer gráfico, começou a criar camisetas serigrafadas com referências de jornal, imagens técnicas e sobreposição de impressão. 

Quando foi obrigado a mudar de nome por motivos legais, fundou a C.P. Company.

 Só que o foco já não era camiseta. Osti entendia roupa como um cruzamento entre funcionalidade, referência histórica e tecnologia. E tratou o vestuário como projeto. Nos anos seguintes, criou um laboratório de tingimento próprio, começou a experimentar com novos tecidos e passou a desenvolver tudo com uma precisão que destoava do padrão comercial italiano da época.

Um dos principais marcos é o processo de Garment Dyeing, que nada mais é do que o tingimento da peça já pronta, e não do tecido cru. Esse método foi desenvolvido na prática: ao invés de colorir metros de tecido, Osti passou a construir a peça completa e só então tingi-la, permitindo que zíper, costura e tecidos com composições diferentes absorvessem o pigmento de forma distinta. Isso criou um acabamento impossível de replicar em massa.

Cada jaqueta, camisa ou calça tinha uma irregularidade única. As cores quebravam, o tempo de secagem influenciava no tom, e tudo ali parecia envelhecer bem. Esse processo, até hoje mantido pela marca, é um dos pilares da estética C.P. Company.

Mas talvez o ponto de maior reconhecimento da marca seja a Goggle Jacket. Lançada oficialmente nos anos 1980, como parte do uniforme para pilotos da Mille Miglia, tradicional corrida automobilística italiana, a jaqueta foi pensada com duas lentes posicionadas no capuz, na altura dos olhos, e uma terceira no punho esquerdo, para visualização de relógio. Isso permitia ao piloto manter os olhos protegidos, mas com visibilidade durante a prova. Osti desenhou a peça com base em óculos de tanquistas da Segunda Guerra, mas aplicando tecnologia têxtil contemporânea. No início, era funcional e com o tempo tornou-se um símbolo inusitado.

É justamente a documentação dessas peças que faz do arquivo digital da marca algo tão valioso. No site, é possível acessar não só os produtos históricos, mas também as edições antigas da revista interna da grife, os desdobramentos de cada coleção e o raciocínio técnico por trás de processos que se tornaram padrão. O arquivo é uma linha do tempo contínua, da Chester Perry até as collabs atuais com Palace, Patta e Adidas. Tem catálogos, manuais de uso, vídeos de fábrica, campanhas escaneadas e toda a parte editorial que moldou a linguagem da marca ao longo das décadas.

Tem também outro ponto que poucos falam,a C.P. Company sempre se preocupou com quem está vestindo, possível de ver nas revistas e registros, onde são comuns os retratos de operários, ciclistas, soldados e entusiastas reais usando as peças. Não tem passarela. Tem rua, garagem, corrida, dia a dia. Isso reforça o entendimento da marca como parte de uma lógica de função. E é o que diferencia ela de outros projetos que só reproduzem estética militar ou esportiva sem qualquer compreensão real do porquê aquilo existe.

Em 2021, no aniversário de 50 anos da marca, a C.P. lançou o livro “C.P. COMPANY 971-021. An informal history of Italian sportswear”. Com mais de 400 páginas, a obra reconstrói toda a trajetória da marca, não em formato de homenagem, mas como inventário. Com depoimentos, colagens, reedições e análises. 

O material, junto ao próprio arquivo digital, virou exposição física, com acervo aberto, galeria temporária e peças resgatadas do laboratório de tingiment, uma ferramenta real de entendimento de como se constrói coerência estética ao longo do tempo. E de como Massimo Osti — talvez o maior nome do sportswear europeu moderno — conseguiu pensar moda como função, não como tendência.


UNDGND ARCHIVE®

A Mídia Cultural que Cria e Movimenta.

JUNTE-SE A COMUNIDADE