Fotojornalismo latino-americano e a construção da imagem como resistência

Fotojornalismo latino-americano e a construção da imagem como resistência

Desde o surgimento da fotografia no século XIX, a imagem passou a disputar com o Estado o controle da narrativa histórica. Na América Latina, região marcada por guerras, revoluções, ditaduras e desigualdades estruturais, esse conflito ganhou contornos específicos. Em contextos de censura, violência institucional e apagamento simbólico, o fotojornalismo se consolidou como uma prática que ultrapassou o registro factual e assumiu função política.

Fotografar, nesses cenários, significou produzir prova, memória e disputa de sentido. Ao longo de mais de um século, fotógrafos atuaram como mediadores entre acontecimentos silenciados e o espaço público, tornando visível aquilo que o poder tentou ocultar.

Guerra do Paraguai (1864–1870)

Antes da consolidação da imprensa ilustrada, a fotografia já era utilizada como documento de guerra. Durante a Guerra do Paraguai (1864–1870), registros fotográficos mostraram soldados mortos, campos destruídos e prisioneiros, rompendo com a representação idealizada das pinturas históricas. Essas imagens introduziram uma linguagem mais direta e inauguraram o uso da fotografia como prova da violência do conflito.

Foto das trincheiras da Batalha de Tuiuti, durante a Guerra do Paraguai (1866).

Esse processo ganhou força com a Revolução Mexicana (1910–1920). Agustín Víctor Casasola, então fotógrafo ligado a jornais da Cidade do México, acompanhou líderes revolucionários, batalhas e mobilizações populares. Seu trabalho registrou figuras como Pancho Villa e Emiliano Zapata, além da participação de camponeses e civis.

Participantes da Revolução Mexicana, de 1910, aguardando o momento de entrar em confronto com as forças do ditador Porfírio Díaz.

As fotografias circularam na imprensa e formaram um arquivo visual contínuo do conflito. A consequência foi a consolidação da fotografia como documento histórico e a criação de ícones políticos que atravessaram gerações.

Nos anos 1930, com o avanço tecnológico da impressão e o surgimento das revistas ilustradas ampliaram o alcance do fotojornalismo. No Brasil, imagens da deposição de Washington Luís em 1930 foram publicadas em jornais e marcaram um momento decisivo da imprensa visual. Revistas como Vu, Life, Revista S.Paulo e Rotofoto passaram a articular texto e imagem para explicar crises políticas e transformações sociais. A fotografia assumiu um papel central na interpretação dos acontecimentos.

Presidente Washington Luís sendo escoltado para fora do Palácio Guanabara em direção ao Forte de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, em 24 de outubro de 1930.

Na década de 1950, a Revolução Cubana produziu uma iconografia reconhecida internacionalmente. Alberto Korda fotografou líderes revolucionários e registrou a entrada das tropas em Havana. Seu retrato de Che Guevara se tornou um símbolo global.

A icônica fotografia "Guerrillero Heroico" de Che Guevara, tirada por Alberto Korda - 1960. 

Essas imagens circularam como narrativa da insurgência e também como material de propaganda estatal, mostrando como o fotojornalismo podia ser apropriado por diferentes forças políticas.

Durante as ditaduras do Cone Sul, entre as décadas de 1960 e 1980, a fotografia entrou em disputa direta com a censura. No Brasil, Chile e Argentina, imagens de prisões, protestos e violência policial foram proibidas ou confiscadas. Fotojornalistas como Evandro Teixeira seguiram registrando manifestações e repressões, muitas vezes sob risco pessoal. Décadas depois, esses arquivos se tornaram provas fundamentais em processos de memória e justiça.

Nas décadas de 1970–90, as guerras civis em El Salvador, Nicarágua, Guatemala e outras regiões produziram cenas de extrema violência que foram documentadas tanto por fotojornalistas locais como estrangeiros. Na guerra civil salvadorenha (1980–1992), estima-se cerca de 75.000 mortos e 8.000 desaparecidos. Fotógrafos como o italiano Giovanni Palazzo, o espanhol Gervasio Sánchez, a estadunidense Susan Meiselas e o mexicano Augusto Vázquez percorreram aldeias, campos e selvas para retratar guerrilheiros e civis, muitos às beiras de enterros e massacres.

“Hombre Molotov”, imagem de Susan Meiselas durante a Revolução da Nicarágua (1979–1990).

Essas imagens (como a célebre foto do “Hombre Molotov” de Meiselas, acima) não apenas documentam a brutalidade do conflito, mas criam registros históricos fundamentais. Como disse Palazzo, seu objetivo era construir “um arquivo que pudesse mostrar o que ocorreu às gerações que não viveram a guerra”. Em suma, as fotos da guerra civil são testemunhos dos horrores: mostram civis assassinados, campos de refugiados, e dão rosto às vítimas de regimes repressivos. Esses registros ilustram que fotografar o conflito é um ato político: visibiliza o inaceitável e impede que a tragédia seja “apagada” dos livros de história.

No período atual, a circulação massiva de imagens e a desinformação criaram novos desafios. Ainda assim, o fotojornalismo profissional manteve sua função de contextualizar, verificar e preservar a credibilidade do registro visual. A atuação ética passou a ser um elemento central para diferenciar documentação histórica de manipulação.

Da Guerra do Paraguai às revoluções e ditaduras do século XX, o fotojornalismo na América Latina construiu um arquivo visual que atravessou o tempo. A obra de Casasola simboliza esse processo inicial, no qual a fotografia se firmou como documento histórico e instrumento de memória social.

Uma mulher se ajoelha diante de soldados em acampamento da ONU, no Sudão do Sul Nektarios Markogiannis (2022).

Ao registrar conflitos e dar visibilidade às populações afetadas, o fotojornalismo contribuiu para impedir o apagamento da violência política. Seu legado permanece como uma forma de garantir que a história possa ser vista, reconhecida e transmitida às gerações seguintes.


UNDGND ARCHIVE®

A Mídia que Documenta e Movimenta a Cultura.

JUNTE-SE A COMUNIDADE