De terceiro sargento a um dos maiores compositores da música brasileira
Martinho da Vila viveu em um Brasil marcado por desigualdades e marginalização da cultura negra. Nos anos 1950-60, havia poucas chances para artistas do samba. Sua vida girou em torno de uma decisão: deixar a carreira militar para se dedicar à música popular.
Martinho José Ferreira nasceu em 12 de fevereiro de 1938, na zona rural de Duas Barras, no interior do Rio de Janeiro. Filho de trabalhadores do campo, passou a infância em um ambiente marcado pelo trabalho rural e por relações simples da comunidade. Ainda criança, mudou-se com a família para o subúrbio do Rio, no bairro de Lins de Vasconcelos. Essa mudança foi decisiva: saiu da vida rural para um espaço urbano popular muito ligado ao samba, ao carnaval e às expressões culturais negras.


Nos subúrbios do Rio de Janeiro, Martinho teve contato direto com blocos de rua, rodas de samba e escolas de samba. A música não apareceu como um projeto de carreira, mas como parte do dia a dia. O samba funcionava como lugar de convivência, troca de conhecimento e formação de identidade coletiva. Ainda jovem, começou a compor e a participar da escola de samba 'Aprendizes da Boca do Mato', onde aprendeu na prática os fundamentos do samba-enredo, da poesia falada e da criação em grupo.

Apesar dessa experiência cultural forte, o contexto social indicava outros caminhos. Para jovens negros e de origem humilde, a expectativa mais comum era buscar profissões consideradas seguras. Martinho seguiu esse caminho. Trabalhou na indústria, fez cursos técnicos no SENAI e, aos 18 anos, entrou no Exército Brasileiro.

A carreira militar oferecia estabilidade financeira, reconhecimento institucional e um futuro previsível. Durante treze anos, trabalhou como terceiro sargento, desempenhando tarefas administrativas e aprendendo valores como disciplina, organização e responsabilidade, qualidades que mais tarde apareceriam em sua vida artística.
Mesmo dentro da rotina militar, Martinho nunca deixou a música de lado. Nas horas vagas, compunha músicas e testava letras em rodas de samba. Até que, em 1967, Martinho da Vila decidiu se inscrever no Festival da Música Popular Brasileira transmitido pela Record, onde apresentou a música “Menina Moça”. Não venceu, mas foi notado.

No ano seguinte, Martinho da Vila voltou com mais força. Em 1968, participou do quarto festival com “Casa de Bamba”. Embora não tenha vencido, seu samba caiu no gosto popular, tocou nas rádios e foi decisivo para sua projeção nacional. Foi com esse samba leve, irônico, de letra afiada e melodia que grudava na mente, que marcou oficialmente sua estreia no mundo da música.
Os festivais de música popular deram mais alcance às suas composições e mostraram que seu trabalho interessava a um público maior, além dos desfiles e das rodas de bairro.

Seu primeiro disco, lançado em 1969, apresentou ao público um artista com identidade própria. As canções misturavam melodias acessíveis, letras diretas e observação atenta do cotidiano popular. Músicas como "Casa de Bamba" e "O Pequeno Burguês" rapidamente se destacaram, colocando Martinho como um dos principais nomes do samba no país.

O reconhecimento crescente criou um conflito entre a carreira militar e a vocação artística. Em 1970, Martinho tomou a decisão definitiva de deixar o Exército e se dedicar só à música. A escolha envolvia riscos reais. O mercado de discos era difícil, o samba ainda sofria preconceito e o país vivia sob a censura da ditadura militar. Mesmo assim, a decisão marcou o começo de uma trajetória que consolidaria seu nome na música brasileira.

Durante a década de 70, Martinho da Vila desenvolveu uma linguagem que equilibrava tradição e inovação. Sem abandonar as raízes do samba, simplificou estruturas, valorizou o canto coletivo e ampliou o alcance do gênero. Sua obra passou a tratar de temas ligados à ancestralidade africana, à vida nos subúrbios e à história do Brasil negro, sempre de forma integrada ao cotidiano, sem usar discursos diretos ou políticos demais.
Junto com a carreira de discos, Martinho manteve atuação constante no carnaval. Como compositor de sambas-enredo, ajudou a reforçar o desfile como espaço de memória histórica e afirmação cultural. Seus enredos ajudaram a consolidar o carnaval como lugar legítimo para contar a experiência negra no Brasil, conectando festa, história e identidade.

Com o passar dos anos, Martinho ampliou seus diálogos culturais. Criou relações com artistas de diferentes gerações, levou o samba a palcos internacionais e construiu pontes com países africanos de língua portuguesa. Também se aproximou da literatura e de temas históricos, reforçando o caráter variado de sua produção.

As marcas principais de sua obra continuam na clareza narrativa, no ritmo cadenciado e na valorização da coletividade. Martinho canta o amor, o trabalho, a festa e a luta do dia a dia com a mesma naturalidade. Sua escrita se mantém acessível sem perder profundidade, apoiada na oralidade, na experiência comunitária e na tradição do samba de raiz.
Mesmo com uma carreira consolidada, manteve continuidade criativa e independência artística. Criou estruturas próprias de produção, manteve o controle sobre sua obra e seguiu lançando discos e projetos que dialogam com o presente sem romper com sua trajetória.
O legado de Martinho da Vila vai além da dimensão individual. Sua escolha, feita décadas atrás, ajudou a ampliar o reconhecimento do samba como expressão central da cultura brasileira.

Ao trocar a farda pelo samba, transformou uma decisão pessoal em um caminho coletivo, influenciando artistas, pesquisadores e movimentos culturais. Sua trajetória resume um processo em que arte, história e identidade se entrelaçam, e seguem servindo como referência no presente.