Como jovens da classe trabalhadora transformaram o futebol inglês em território de confronto e identidade

Das arquibancadas às ruas, as torcidas organizadas inglesas moldaram uma subcultura que ultrapassou o esporte e marcou o imaginário urbano do pós-guerra

Como jovens da classe trabalhadora transformaram o futebol inglês em território de confronto e identidade

A Inglaterra do pós-guerra e o nascimento de uma identidade coletiva

O hooliganismo surgiu no futebol inglês como reflexo direto das mudanças sociais que o país viveu a partir dos anos 1950. No pós-guerra, a Inglaterra enfrentava o declínio do Império Britânico, a queda da indústria pesada e o aumento do desemprego entre jovens da classe trabalhadora urbana. Esse cenário gerou frustração social, sensação de exclusão e falta de perspectivas, principalmente entre homens jovens.

Os estádios de futebol viraram pontos de encontro dessa juventude. Mais do que ir aos jogos, esses grupos começaram a usar o futebol como forma de afirmar território e identidade. Defender um clube significava defender um bairro, uma cidade e um estilo de vida. A rivalidade esportiva ganhou contornos sociais e físicos, transformando as arquibancadas num espaço de disputa simbólica e real.

Da rivalidade espontânea à organização das firms

Nas décadas de 1960 e 1970, o comportamento violento deixou de ser ocasional e ganhou uma estrutura organizada. Surgiram as chamadas firms: grupos estruturados de torcedores ligados a clubes específicos, com nomes próprios, lideranças informais e regras internas.

Essas organizações planejavam confrontos, escolhiam lugares longe da vigilância policial e agiam tanto dentro quanto fora dos estádios. O jogo, muitas vezes, ficava em segundo plano. O objetivo principal era enfrentar grupos rivais e manter a reputação da firm. Participar desses confrontos era o que garantia pertencimento e reconhecimento dentro do grupo.

Códigos internos, lealdade e disciplina

As firms funcionavam a partir de códigos rígidos de conduta. Havia regras sobre quem podia participar dos confrontos e quem deveria ser poupado. Torcedores comuns, famílias e idosos geralmente não eram alvos. As brigas deveriam rolar entre grupos organizados, em confrontos considerados equilibrados.

A lealdade ao grupo era essencial. Colaborar com autoridades, se expor demais na mídia ou quebrar regras internas era visto como traição. Para muitos integrantes, atuar na firm tinha um caráter quase militar, baseado em resistência física, silêncio e disciplina.

Disputas políticas nas arquibancadas

Embora o hooliganismo não tenha começado como movimento político estruturado, o ambiente das torcidas organizadas virou espaço de disputas ideológicas. Durante os anos 1970 e 1980, grupos de extrema-direita começaram a recrutar membros entre hooligans, explorando discursos nacionalistas, racistas e anti-imigração.

Por outro lado, principalmente a partir dos anos 2000, surgiram movimentos antifascistas ligados ao futebol inglês. Algumas torcidas passaram a se posicionar publicamente contra o racismo e a intolerância, transformando o estádio num espaço de embate político e social.

Heysel e a ruptura histórica

O episódio que marcou definitivamente a percepção internacional do hooliganismo aconteceu em 1985, durante a final da Liga dos Campeões entre Liverpool e Juventus, no Estádio de Heysel, na Bélgica. A invasão de um setor por torcedores ingleses provocou o colapso de uma estrutura, resultando na morte de dezenas de pessoas.

A tragédia levou à exclusão dos clubes ingleses das competições europeias por vários anos e provocou uma série de reformas. O governo britânico endureceu a legislação, investiu em vigilância, reformou estádios e aumentou a repressão às torcidas organizadas.

Grupos emblemáticos e a construção de um imaginário

Entre as firms mais conhecidas estavam a Inter City Firm, do West Ham United; o Red Army, do Manchester United; os Chelsea Headhunters; e os Bushwackers, do Millwall. Esses grupos se tornaram referências não só pela violência, mas pelo nível de organização e pela influência cultural.

Livros, filmes e documentários começaram a retratar esse universo, contribuindo para a construção de uma imagem mitificada do hooligan. Essa exposição ajudou a fixar o fenômeno no imaginário popular britânico e internacional.

A estética casual e a transformação da imagem do torcedor

No decorrer dos anos, o hooliganismo inglês passou por uma mudança visual importante. Surgiu a chamada casual culture, marcada pelo abandono das camisas de clube e pela adoção de roupas discretas de marcas europeias. A escolha tinha um objetivo prático: confundir a polícia e facilitar a circulação entre torcedores comuns.

Com o tempo, essa estética ganhou valor simbólico. Marcas como Fred Perry, Fila, Sergio Tacchini e Burberry se tornaram comuns. Nos anos 1980 e 1990, grifes como Stone Island e C.P. Company viraram referências visuais desse universo. Jaquetas técnicas, tecidos resistentes e cortes funcionais passaram a comunicar status, disciplina e pertencimento.

Essa estética passou dos estádios e influenciou diretamente a moda urbana e o streetwear nas décadas seguintes.

Repressão, transformação e legado

A partir dos anos 1990, com a modernização do futebol inglês e a transformação dos clubes em grandes empresas, o espaço para as firms diminuiu bastante. A violência ficou menos visível e mais deslocada para fora dos estádios.

Ainda assim, o hooliganismo não desapareceu. Ele permaneceu como memória cultural e influência estética, moldando comportamentos, discussões sobre segurança e a relação entre futebol, política e identidade coletiva.

O hooliganismo inglês foi resultado de um contexto social específico, marcado por desigualdade, perda de referências e busca por pertencimento. Indo além do estereótipo de torcidas violentas, o hooliganismo representou e ainda representa uma forma de organização juvenil que encontrou no futebol um campo de expressão.

Seu legado continua visível na cultura urbana, na moda e na forma como o futebol atual entende o papel das torcidas. O fenômeno mostrou que o futebol, ao longo de sua história, sempre refletiu as tensões e transformações da sociedade que o envolve.


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