Carna-afro: Celebração brasileira aliada a cultura africana

Carna-afro: Celebração brasileira aliada a cultura africana

Atravessando continentes, falar de carnaval brasileiro é revisitar a história do Brasil e da África.

O carnaval, uma das principais festas do mundo, se potencializou no Brasil a partir da presença dos povos africanos escravizados durante o período colonial. Inicialmente, era chamado de Entrudo, prática carnavalesca trazida de Portugal em meados do século XVII. No Brasil, o Entrudo foi amplamente celebrado pelas classes populares e pela população escravizada, o que gerou fortes críticas por parte da elite da época.

Na década de 1920, surgem as escolas de samba juntamente com os desfiles, consolidando a identidade que conhecemos hoje. A partir desse momento, a influência africana deixa de ser apenas uma presença marginal e passa a estruturar o carnaval brasileiro, seja na música, na dança, na estética ou na lógica coletiva da festa.

Falar de carnaval no Brasil sem mencionar a cultura africana é apagar a principal influência da maior celebração do planeta. Embora tenha origem europeia, a festa assume uma nova identidade ao chegar ao país, tornando-se algo singular. O corpo negro, antes perseguido e criminalizado, passa a ser celebrado. A manifestação marginalizada invade as avenidas e passa a personificar a própria história do Brasil.

África na avenida e sua origem

No início da década de 1960 a predominância temática dos desfiles ainda era fortemente influenciada pela Europa. Esse cenário começa a mudar quando a escola Acadêmicos do Salgueiro rompe esse padrão com o histórico enredo Quilombo dos Palmares. Dividido em cinco partes, o desfile narrava a trajetória de resistência protagonizada por Zumbi, do cativeiro à nação livre.

A revolução começava ali. O negro como protagonista, a África ocupando o centro da avenida e a história da resistência negra ganhando espaço na narrativa do carnaval brasileiro.

Ao som de atabaques, o desfile abre com os versos:

“No tempo em que o Brasil ainda era Um simples país colonial, Pernambuco foi palco da história Que apresentamos neste carnaval.”

Ao expor a resistência negra no Brasil, o desfile foi amplamente elogiado, e a imprensa da época chegou a classificá-lo como favorito daquele ano. Fernando Pamplona, autor do enredo, desejava que esse fosse o primeiro desfile em que pudesse trabalhar de forma integral, sem interferências externas na história que pretendia contar. A proposta foi abraçada, e o impacto foi imediato. O desfile abriu novos caminhos, evidenciando a força simbólica de Zumbi e inaugurando uma nova rota estética e política para os desfiles seguintes.

Quando o samba é vigiado

Quatro anos após o Brasil celebrar Zumbi dos Palmares no carnaval, a festa passa a ser controlada por militares. O samba segue sendo cantado, agora sob a vigilância extremista da ditadura. Letras são censuradas, e qualquer menção direta à política passa a ser proibida nas composições.

Paralelamente, o carnaval deixa de ser apenas uma manifestação cultural e se transforma em um produto mercadológico, impulsionado pela cobertura televisiva. Surge então uma grande contradição: “Pode sambar, desde que não questione”. Financiado pelo próprio Estado, o carnaval adota uma lógica capitalizada, enquanto a cultura afro-brasileira tem sua dor silenciada e suas críticas sufocadas.

Durante esse período, o Brasil é retratado como um país alegre, harmônico e sem conflitos, exatamente a imagem que os golpistas desejavam vender. Ainda assim, a festa encontra formas simbólicas de resistência, utilizando o passado para comentar o presente e evidenciar os retrocessos impostos à nação.

O batuque que ecoa o Brasil

Outro aspecto fundamental da influência africana no carnaval brasileiro é a sonoridade. Diferente da musicalidade europeia, que prioriza melodia e harmonia, a música africana se organiza a partir do ritmo. No samba, o canto conduz a narrativa, a bateria sustenta a ambiência sonora e o corpo reage a essa junção, dançando e contando histórias.

Instrumentos que ancestralizam a festa reforçam essa herança, como o atabaque, amplamente utilizado em religiões de matriz africana, o surdo, uma adaptação urbana dos tambores africanos, e o chocalho, responsável por marcar o tempo e preencher os espaços sonoros.

Em muitas tradições africanas, a dança é parte indissociável da música. No samba não é diferente. O samba-enredo é feito para ser vivido em movimento: andado, dançado e sentido. Passistas, alas e bateria traduzem o som em gesto, criando uma narrativa corporal coletiva. Essa junção ancestral dialoga com a cultura urbana brasileira e resulta no espetáculo que ocupa as avenidas.

Conexão Espiritual 

O carnaval nasce da conexão. Cada região do mundo desenvolveu suas próprias formas de celebrar, cultuar e expressar a diversidade cultural. No Brasil, o carnaval vai além da festa. É um momento de encontro, celebração e, sobretudo, de reconhecimento histórico.

Da colônia ao Entrudo, dos desfiles ao olhar midiático, o carnaval se constrói como um espaço de resistência contínua. É nele que a força ancestral africana atravessa o tempo, ressignifica dores e reafirma identidades. Mais do que entretenimento, o carnaval brasileiro é memória viva, uma herança que veio de outro continente e ajudou a moldar, de forma profunda, a cultura e a história do país.


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