A sociedade à beira do colapso em La Haine.

A sociedade à beira do colapso em La Haine.

Em 6 de abril de 1993, Paris se viu diante de mais uma ferida aberta.
Makome M'Bowole, um jovem de 17 anos, filho de imigrantes do Zaire, é levado à delegacia acusado de roubar cigarros. O promotor manda soltá-lo. O policial não obedece. Pouco depois, Makome é morto com um tiro na cabeça. Durante o julgamento, a versão oficial diz que foi "acidente". Mas a acusação contesta: para disparar a arma, era preciso fazer muita força no gatilho, com a arma encostada no rosto do garoto. É difícil acreditar que foi um simples erro.

Essa morte coloca fogo nas ruas. Por dias, vemos protestos, lojas quebradas, carros queimados e cartazes feitos às pressas dizendo "Não se esqueça que a polícia mata" e "Justiça para Mako". O que antes era uma raiva escondida agora explode à vista de todos. A violência policial, já conhecida por muitos, chegava a um ponto sem volta.

Protestos em prol de justiça por Makome M'Bowole - 1993.

Dois anos depois, o diretor Mathieu Kassovitz usa essa história real para criar La Haine (O Ódio), um filme que começa mostrando imagens reais do protesto e caos ao som de bob marley, e termina com um silêncio que diz muito. Entre o começo e o fim, ele conta a história de três amigos: Vinz, que é judeu; Hubert, que é negro; e Saïd, filho de imigrantes árabes do norte da África. Eles não são mocinhos nem vilões, são apenas jovens tentando sobreviver em um lugar onde falta emprego, sobra pobreza e o racismo caminha junto com a falta de futuro.

No filme, tudo começa com Abdel, amigo dos três, que fica em coma depois de ser espancado pela polícia. Na confusão que se segue, Vinz encontra a arma perdida de um policial. Logo após, Vinz interpreta uma das cenas mais emblemáticas do filme, em que ele se vê no espelho imitando Travis Bickle do filme Taxi Driver, como se aquela arma pudesse equilibrar a balança da injustiça. É um gesto que mostra tanto poder quanto desespero, e a tensão só aumenta.

Cenas do filme O Ódio (La Haine) - 1995.

O filme mostra as horas passando na tela, como uma contagem regressiva para algo que vai explodir. Algumas cenas falam mais que qualquer diálogo. No hospital, a câmera mostra Vinz da cintura para baixo, com a arma escondida na calça e a mão inquieta. O silêncio dessa cena é ensurdecedor.
A escolha da imagem em preto e branco não é apenas estética, mas também narrativa e política: pretendeu tornar os personagens universais, intensificar a atenção nas faces e na violência social, eliminar distrações cromáticas das periferias e criar uma atmosfera atemporal e dramática.

Mas La Haine vai além da violência que podemos ver. O filme mergulha mais fundo: mostra como a França, que trouxe imigrantes árabes e africanos para ajudar a reconstruir o país depois da guerra, agora os trata como invasores. A famosa "Cidade Luz" também tem cantos escuros. Quando os três amigos vão ao centro de Paris, sentem na pele a exclusão: como na galeria de arte que não os aceita, na expulsão que deixa claro que aquele lugar nunca foi feito para eles.

Cenas do filme O Ódio (La Haine) - 1995.

Ao amanhecer, os três amigos voltam ao subúrbio após uma noite conturbada nas ruas de Paris. Vinz, entrega a arma a Hubert, um breve momento de paz. Mas o destino os coloca frente a frente com o mesmo policial de antes. Arma apontada, Vinz grita, Hubert se move. Um tiro rasga o silêncio. Não sabemos quem caiu.

A câmera encontra Saïd, quieto contra um carro, enquanto a voz de Hubert ecoa: "É a história de uma sociedade que cai... mas o importante não é a queda, é a aterrissagem." A tela escurece com o eco do disparo ainda no ar.

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É nessa incerteza angustiante que o filme ganha força. Não importa se foi Vinz ou Hubert, o que importa é que todos estamos presos nesse ciclo. Como na vida real, não há respostas fáceis, apenas o silêncio pesado depois do tiro. A mensagem de Kassovitz é clara em sua crueza: quando o sistema desmorona, não perguntamos se vai terminar mal, mas quando vamos atingir o chão.


o filme ganhou o Prêmio de Melhor Direção em Cannes (1995) e foi elogiado por Martin Scorsese, mas também provocou polêmica na França. Muitos policiais protestaram contra o lançamento, acusando Kassovitz de demonizar a corporação. Paradoxalmente, anos depois, La Haine foi exibido em sessões oficiais para... policiais em formação.

Quase trinta anos depois, o filme permanece atual. De George Floyd nos EUA a casos recentes de violência policial na própria França, La Haine continua ecoando. Ele é, ao mesmo tempo, um registro histórico e um alerta incômodo, uma ficção que nunca deixou de ser realidade.

No fundo, Kassovitz mostrou que cada revolta nas ruas não nasce do nada: é sempre um pedido de justiça não atendido. E enquanto esse pedido não for ouvido, a aterrissagem será sempre a mesma.


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