A fascinante conexão entre Jean-Michel Basquiat e Picasso

A fascinante conexão entre Jean-Michel Basquiat e Picasso

No começo do século XX, a arte europeia queria romper com os limites da tradição acadêmica. Já no final do mesmo século, o graffiti urbano nos Estados Unidos surgia como resposta às tensões sociais, raciais e culturais do mundo moderno. É nesse período que Pablo Picasso e Jean-Michel Basquiat se encontram.

Separados por quase oitenta anos, contextos diferentes e posições opostas no mundo da arte, ambos usaram referências consideradas não ocidentais como forma de transformação visual e simbólica. A ligação entre os dois mostra como certas linguagens atravessaram o tempo e ajudaram a mudar os rumos da arte moderna e contemporânea.

Pablo Picasso nasceu em 1881, em Málaga, na Espanha, e estudou nas instituições de arte europeias. Viveu em Paris, centro intelectual da época, e participou dos movimentos de vanguarda do início do século XX. Jean-Michel Basquiat nasceu em 1960, no Brooklyn, em Nova York, filho de pai haitiano e mãe porto-riquenha. Cresceu em meio à cultura urbana, ao graffiti e às mudanças sociais da cidade nos anos 1970 e 1980. Enquanto Picasso trabalhava no centro da arte ocidental, Basquiat surgiu das margens, circulando entre a rua e as galerias de arte.

A carreira de Picasso cresceu rapidamente no início do século XX. Depois de romper com o naturalismo acadêmico, ele passou a questionar a forma tradicional de representar o corpo e o espaço. Entre 1906 e 1909, viveu o chamado período africano, marcado pelo contato com máscaras e esculturas de culturas africanas e oceânicas, vistas principalmente em museus etnográficos de Paris.

Esse contato causou uma mudança importante em sua pintura. As figuras ficaram angulosas, fragmentadas e agressivas. A ruptura aconteceu em Les Demoiselles d'Avignon, obra que abriu caminho para o cubismo e mudou os parâmetros da arte moderna europeia.

Les Demoiselles d'Avignon

Basquiat começou sua trajetória fora das instituições. No final da década de 1970, espalhava frases e inscrições pelo Lower East Side usando o pseudônimo SAMO. A experiência urbana, marcada pela crise econômica, pelo surgimento do hip-hop e pela renovação da cultura negra, moldou sua linguagem visual. Ao passar das ruas para as galerias no início dos anos 1980, Basquiat manteve o graffiti como base de sua pintura, incorporando textos, símbolos, corpos fragmentados e referências históricas em uma superfície cheia de tensão.

Apesar das diferenças, Basquiat teve contato cedo com a história da arte ocidental. Sua mãe o levava com frequência a museus, permitindo que conhecesse obras de artistas como Monet, Pollock e Picasso ainda criança. Entre essas referências, Guernica teve papel central. A pintura mostrou a Basquiat um modelo de arte capaz de unir violência formal, narrativa histórica e posição simbólica. A deformação das figuras e o uso expressivo da imagem se tornaram elementos frequentes em sua própria obra.

Guernica, 1937 - Pablo Picasso

O primitivismo serviu como ponto de encontro entre os dois artistas. No início do século XX, o uso de referências não europeias serviu a Picasso como instrumento de ruptura formal. Ao se afastar da perspectiva clássica, ele buscou novas formas de representar o corpo humano. Esse processo, embora inovador, esteve ligado à lógica colonial da época, marcada pela apropriação e retirada de contexto de objetos e símbolos de culturas colonizadas.

Em Basquiat, o primitivismo ganhou outro sentido. As referências africanas e ancestrais funcionaram como afirmação de identidade e memória histórica. Máscaras, figuras hieráticas e signos graffiti apareceram em suas pinturas como parte de uma narrativa sobre raça, poder e apagamento cultural.

Cientista Antigo (1987).

Em obras como Cientista Antigo (1987), a estética remete diretamente às máscaras tribais, criando um diálogo visual com o vocabulário formal explorado por Picasso décadas antes, mas colocado em um contexto político e social diferente.

A influência de Picasso na obra de Basquiat também apareceu de forma clara. Em 1984, Basquiat produziu Sem título (Jovem Picasso) e Sem título (Pablo Picasso), retratos diretos do artista espanhol. O gesto foi incomum em sua produção, que na maior parte tratava de figuras negras. Ao retratar Picasso, Basquiat reconheceu sua importância histórica e, ao mesmo tempo, mostrou a centralidade branca do cânone artístico ocidental, criando uma relação ambígua entre homenagem e questionamento.

Sem título (Jovem Picasso) e Sem título (Antigo Pablo Picasso) - 1984.

Além da arte africana, o Antigo Egito apareceu como referência comum. Basquiat dialogou com símbolos egípcios em composições frontais e figuras hieráticas, como em Sem título (Gansos+), de 1984, que faz referência aos Gansos de Meidum. Picasso, em sua fase tardia, também retomou elementos egípcios, como em Couple et Voyageuse, de 1968. Em ambos os casos, o passado antigo foi usado como fonte simbólica para pensar o presente.

Basquiat entendia a arte como recombinação de informações culturais. Em entrevistas, afirmou que os dados históricos que utilizava já existiam antes dele. Sua pintura funcionava como espaço de condensação de saberes, reunindo história da arte, cultura negra, ciência, música e experiência urbana. Essa abordagem reforçou a ideia de continuidade histórica, na qual formas e símbolos atravessam o tempo e ganham novos significados.

A ligação entre Basquiat e Picasso mostra a arte como campo de travessia temporal. Revela também as tensões entre centro e margem, entre Europa e diáspora negra, e entre apropriação e reivindicação cultural. Picasso abriu caminhos formais decisivos para a arte moderna. Basquiat retomou essas formas e as reposicionou a partir de uma experiência histórica marcada pelo racismo e pela exclusão.

Ao final, a relação entre os dois artistas mostra que a história da arte não se construiu de forma linear. Ela se formou por rupturas, retomadas e disputas simbólicas. Basquiat não apenas herdou soluções formais de Picasso, mas as transformou em instrumentos de crítica e afirmação cultural. A conexão entre ambos amplia o entendimento da arte como espaço de diálogo contínuo, no qual passado e presente permanecem em constante reescrita.


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