A busca pelo analógico como contramovimento cultural da Geração Z
Vivemos em um tempo onde imagens aparecem e somem em segundos. Um clique, um gesto, e tudo já mudou. Notificações não param, feeds se atualizam sem parar e a atenção se perde rápido. Nesse cenário, a velocidade é a linguagem principal do dia a dia.
Entre os anos 2000 e início dos anos 2010, a vida passou a ser dominada por telas, notificações e informação constante. A Geração Z foi a primeira a crescer completamente nesse ambiente digital. A partir da segunda metade da década de 2010, porém, um movimento discreto começou a se consolidar. Jovens passaram a retomar práticas analógicas não como rejeição à tecnologia, mas como estratégia de equilíbrio diante da hiperconectividade. O analógico surgiu como contramovimento cultural, orientado pela desaceleração, pela atenção e pela experiência material.

O contexto que antecedeu esse movimento esteve ligado à expansão das redes sociais, à lógica algorítmica de visibilidade e ao consumo fragmentado de conteúdo. Estudos sobre saúde mental, divulgados a partir dos anos 2010, associaram o uso excessivo de telas a ansiedade, dispersão e exaustão cognitiva. Nesse cenário, práticas que exigiam tempo contínuo e presença começaram a ser revalorizadas.

A leitura de livros físicos voltou a crescer em determinados segmentos, assim como o hábito da escrita manual. Essas atividades impunham limites claros: não permitiam alternância constante de estímulos nem interrupções automáticas. O foco prolongado passou a ser entendido como experiência em si.
Na música, o retorno do vinil tornou-se um dos sinais mais visíveis desse processo. A partir de 2020, o mercado de discos ultrapassou o de CDs em diversos países. O dado foi interpretado menos como preferência técnica e mais como adesão ao ritual da escuta. Escolher um viníl, posicionar a agulha e ouvir o disco completo estabeleceu uma relação diferente com o tempo e com o som. No Brasil, feiras especializadas, lojas independentes e prensagens nacionais acompanharam esse crescimento.

A fotografia tem seguido um caminho semelhante. Câmeras analógicas e modelos digitais antigos passaram a circular entre jovens que buscavam distanciamento da produção acelerada de imagens para redes sociais. Fotografar sem visualizar imediatamente e o resultado transformou o ato em uma escolha intencional. A textura das imagens, o ruído do analógico e a espera pela revelação devolveram valor simbólico à imagem e reforçaram sua dimensão de objeto.

No dia a dia, o contramovimento também se manifestou em escolhas práticas. O uso de celulares com funções limitadas, a adoção de rotinas de redução de telas e a exclusão deliberada de notificações indicaram tentativa de retomada do controle do tempo. Objetos como relógios analógicos reapareceram como alternativa a dispositivos multifuncionais, justamente por não oferecerem estímulos adicionais.

Outro elemento central foi a valorização da materialidade. O contato físico com papel, metal, plástico ou vinil ativou sentidos pouco exigidos no ambiente digital. Essa dimensão tátil fortaleceu vínculos afetivos com os objetos e ampliou a permanência das experiências na memória.
Ao longo dos anos 2020, a busca pelo analógico consolidou-se como fenômeno cultural entre jovens. Isso não representou o retorno ao passado nem negação do presente tecnológico. É mais uma forma de desacelerar. Ao usar coisas que exigem mais atenção e tempo, parte da Geração Z está aprendendo a usar a tecnologia de forma mais equilibrada.

O analógico deixou de ser apenas saudade do passado ou apenas uma escolha visual estética. Virou uma maneira de organizar melhor o tempo, estar mais presente e viver experiências mais significativas no dia a dia.